Prédio do Arquivo Histórico, Memorial do RS e Museu Antropológico reabre em definitivo em 2027
Edifício em Porto Alegre, afetado pela enchente de 2024, recebe investimento de mais de R$ 8 milhões do governo do Estado
Publicação:
Passados dois anos das enchentes de 2024, o governo do Estado, por meio da Secretaria da Cultura (Sedac), vem buscando realizar ações de restauro e recuperação do prédio que abriga o Arquivo Histórico, o Memorial do Rio Grande do Sul e o Museu Antropológico (Musa).
Localizada na Praça da Alfândega, no Centro Histórico de Porto Alegre, a edificação dos antigos Correios e Telégrafos foi uma das afetadas pela inundação e desde então passa por melhorias que ultrapassam um investimento de R$ 8 milhões pelo governo do Estado. A previsão de conclusão das obras é no primeiro trimestre de 2027.
Recuperação da memória do Estado
Com mais de dez milhões de documentos raros que carregam a memória do Estado, o Arquivo Histórico do RS (AHRS) enfrentou os desafios impostos pela enchente com resiliência. A água impediu o acesso da equipe ao local durante quase todo o mês de maio daquele ano e a umidade das semanas seguintes agravou as condições do material, que não possui versão digitalizada. Como a instituição ocupa o terceiro andar do prédio, nenhum documento ficou submerso.
“Foram mais de três semanas assistindo à devastação e à destruição ocasionadas pela pior inundação do nosso Estado, que gerou perdas humanas, da flora e da fauna, materiais e patrimoniais. Felizmente, todas as dependências do Arquivo Histórico se localizam no terceiro pavimento e nossa maior preocupação era em relação ao acervo, à exposição à umidade excessiva. Quando conseguimos acessar o prédio, no dia 28 de maio, os higrômetros marcavam 90% de umidade relativa do ar, péssimo para a conservação dos documentos”, relembrou a diretora do AHRS, Ananda Simões Fernandes.
Com a demora no restabelecimento da energia elétrica, em virtude da subestação que abastece o Centro Histórico ter sido completamente atingida pela água, houve a necessidade de contratação de um gerador para a equipe retomar os trabalhos. “O atendimento ao público foi restabelecido somente em agosto de 2024, bem como as demais atividades de gestão, conservação, acesso e difusão do acervo. Nossa principal preocupação era que as pessoas pudessem ter acesso aos documentos, pois há uma busca muito grande do acervo do Arquivo Histórico para a realização de pesquisas para fins acadêmicos, judiciais, indenizatórios, entre outros", ressalta Ananda.
Investimentos no Arquivo Histórico
Para a recuperação do acervo, foram investidos mais de R$ 400 mil, oriundos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs). Os recursos possibilitaram a higienização, diagnóstico, conservação preventiva, restauração e acondicionamento dos dez códices (livros encadernados) mais antigos referentes à imigração alemã, e dos 15 códices mais antigos referentes à imigração italiana custodiados pela instituição.
O critério de escolha dos materiais para o restauro levou em conta a alta demanda pela pesquisa e a relação com as comemorações dos 200 anos da imigração alemã no Rio Grande do Sul, em 2024, e dos 150 anos da imigração italiana, em 2025. São registros dos colonos alemães que chegaram no Rio Grande do Sul. “Desse modo, conseguimos continuar cumprindo nossa missão institucional, de preservar, dar acesso e difundir a memória e história sul-rio-grandenses, de forma pública e gratuita, para a população”, explicou Ananda. A conclusão dos trabalhos está prevista para maio do próximo ano.
A aquisição de 18 módulos de arquivos deslizantes, que contribuem para a preservação e a conservação dos documentos, também integrou o pacote de investimentos do governo do Estado no AHRS. As estruturas foram adquiridas com recursos do Funrigs no valor de R$ 1,4 milhão.
Obras estruturais no edifício
Um projeto de obras estruturais no prédio, que contemplam a substituição completa da rede elétrica; a restauração de paredes, coberturas, forros, pisos e esquadrias; a recuperação de sanitários e a restauração de fachadas; e a implantação de novos sistemas de climatização nas reservas técnicas e áreas de trabalho teve início em março de 2025. As melhorias são custeadas por meio do programa do governo federal PAC Cidades Históricas, no valor de R$ 6,61 milhões, e devem ser finalizadas no primeiro trimestre de 2027.
Segundo o diretor do Departamento de Memória e Patrimônio (DMP) da Sedac, Eduardo Hahn, a pasta estuda um aditivo de R$ 2 milhões no projeto do PAC Cidades Históricas para viabilizar o conserto de elevadores e rebocos que estragaram na inundação, bem como auxiliar no desentupimento de instalações.
Enquanto o Arquivo Histórico não abre em definitivo, o atendimento ao público ocorre de terça a quinta-feira, das 13h às 17h, sob agendamento prévio pelo email agendamento-ahrs@sedac.rs.gov.br.
Memorial do RS
Embora o Memorial do Rio Grande do Sul seja uma instituição museológica sem acervo sob sua salvaguarda, seu principal objeto de trabalho — o próprio prédio histórico e a paisagem de seu entorno, especialmente a Praça da Alfândega — foi diretamente impactado pela enchente de 2024. É a partir dessa relação com a história e a memória do edifício e do território que a instituição desenvolve suas ações educativas e de educação patrimonial.
Na época, diversas atividades estavam em andamento. Com a programação interrompida e o prédio duramente afetado, a equipe do Memorial buscou alternativas para a realização de ações de preservação e fomento da memória histórica e cultural gaúcha. Ao longos desses dois anos, se manteve mobilizada, participando de formações, mostras, encontros e do Dia Estadual do Patrimônio Cultural, mesmo com limitações.
“Nosso planejamento precisou ser adaptado e ganhou novos sentidos. Passamos a incorporar projetos voltados à reflexão sobre o desastre socioambiental, fortalecendo o papel do Memorial como espaço de memória, escuta e diálogo com a sociedade, mesmo fora de sua sede física. As parcerias com outras instituições também se intensificaram, além do uso mais ativo da Praça da Alfândega e de outros espaços da cidade”, relatou a coordenadora do Memorial do RS, Cecilia Ricardo.
Sobre a experiência da enchente, ela confessa que “foi muito diferente das referências de imagem que tínhamos das enchentes históricas que atingiram o edifício: mais dura, próxima e concreta, marcada também pelas condições de trabalho enfrentadas ao longo dos meses seguintes. Ao mesmo tempo, foi um período de mobilização, aprendizado e fortalecimento coletivo”, relatou.
À espera da conclusão da obra de recuperação, a equipe do Memorial trabalha em um espaço cedido pelo RS Criativo, programa estratégico do governo do Estado coordenado pela Sedac e que funciona na Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ). O horário de atendimento é das 8h30 às 17h30. Mais informações podem ser obtidas pelo email memorial@sedac.rs.gov.br.
Museu Antropológico
Sediado no prédio do Memorial do Rio Grande do Sul desde 2015, o Museu Antropológico (Musa) atua como espaço de promoção da diversidade social e cultural, voltado à valorização do patrimônio antropológico do Estado. Sua missão envolve a pesquisa, aquisição, preservação, gestão, comunicação e exposição de acervos etnológicos e arqueológicos, com o objetivo de fomentar a Educação Museal e a divulgação científica.
Quando a enchente de 2024 invadiu a edificação centenária, o Musa estava com uma exposição prestes a inaugurar e projetos de museologia colaborativa e de conservação e preservação de seu acervo em andamento. “As obras da mostra foram danificadas, mas restauradas posteriormente, resultando em uma montagem definitiva em 2025, no Espaço Cultural Força e Luz”, contou a coordenadora do Museu, Maria Helena Sant’Ana.
Com um acervo de mais de 40 mil itens, parte das coleções da extinta Fundação do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTG) - peças de pesquisas de folclore e cultura popular em suportes sonoros, fotográficos e audiovisuais de diferentes regiões do Rio Grande do Sul -, sofreu avarias pelo excesso de umidade a que ficou exposta, embora não tenha sido alagada pela água. “O impacto só foi identificado meses depois, quando a equipe teve acesso ao material para sua gestão e manejo de conservação e preservação”, explicou Maria Helena.
Hoje, todo o acervo encontra-se na reserva técnica do Museu, localizada na Rua dos Andradas, 1234, salas 1003, 1005 e 1007, 10º andar. Nos mesmos espaços do Centro Histórico de Porto Alegre também estão documentos para pesquisas, coleções arqueológicas e etnográficas.
Atuação colaborativa
Dois anos após a maior tragédia climática vivida pelo Estado, o Musa segue seu trabalho de valorização, promoção e divulgação das diferenças culturais e sociais do Rio Grande do Sul. A instituição tem atuado na reorganização e inventário de seu acervo, com a introdução de curadorias colaborativas e a disponibilização de coleções na plataforma Tainacan.
Em outro programa, tem explorado projetos itinerantes de expografias que circulam pelo interior do Rio Grande do Sul, como o expográfico Palmares Vive!, de memória social dos ativismos e resistências negras, que circulou por mais de dez municípios e mais de 3.500 visitantes. E o atual projeto expográfico de curadoria de artesãos e professores Mbya Guarani, que irá inaugurar em agosto, no Museu das Missões, em São Miguel das Missões (RS). Em abril deste ano, o Museu Antropológico modificou seu acrônimo de MARS para Musa, adotando uma nova identidade visual, e repaginou seu site, com ferramentas de acessibilidade.
Atualmente, a equipe do Musa trabalha junto às reservas técnicas da instituição, na Rua dos Andradas, 1234, sala 1005. O horário de atendimento é de segunda a sexta-feira, das 9h ao meio-dia e das 13h30 às 17h. Pesquisadores e interessados devem agendar visita pelo email musa@sedac.rs.gov.br. O formulário de consulta ao acervo está disponível no site do museu.
Texto: Ascom Sedac
Edição: Secom