Legalidade
Em 1961, depois da renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto e do veto dos ministros militares à posse do vice-presidente João Goulart, o clima no Brasil beirou em momentos a convulsão social. E o Palácio Piratini foi o cenário para onde o país se voltou. Da sede do Executivo gaúcho, o então governador do Estado Leonel Brizola liderou o movimento que faria valer a Constituição e garantiria a posse de João Goulart. O movimento ficou conhecido como Legalidade.
Os militares e a UDN, partido do ex-presidente Quadros, se opunham à posse de Jango sob a alegação de que o vice-presidente era incentivador de greves e admirador do regime comunista. Esses setores iniciaram uma série de ações para que o parlamentarismo fosse instalado no país. Brizola, que era cunhado do vice-presidente e correligionário, ambos pertenciam ao PTB, defendia sua posse, para que fosse mantida a legalidade. Brizola contou com o apoio da opinião pública e também do III Exército, sediado no Rio Grande do Sul e sob o comando do general Machado Lopes.
Embora o clima fosse de quase guerra civil, a grande arma do governador Brizola na campanha da Legalidade foi um microfone. Nos porões do Palácio Piratini, ele instalou uma estação de rádio (a Rádio da Legalidade) e durante 11 dias falou aos cidadãos gaúchos por meio de uma rede de 104 estações de rádio. A rede foi transmitida de 27 de agosto, quando os equipamentos da Rádio Guaíba foram transferidos para os porões do Piratini, até 7 de setembro, posse de Jango. Dia 29, a Rádio Farroupilha, que estava fora do ar por determinação militar, também foi encampada pelo Governo do Estado. O primeiro time do radiojornalismo gaúcho atuou junto ao governador para manter a rede no ar. E a notícia correu mundo, Brizola recebia dezenas de mensagens de apoio diariamente. Declarações de ouvintes famosos, como as do escritor Erico Verissimo e do arcebispo dom Vicente Scherer, eram repetidas várias vezes ao dia. Dom Vicente Scherer havia garantido à primeira-dama Neusa Brizola que se houvesse ameaça de bombardear o palácio, ele mesmo se sentaria à porta principal do Piratini até que a ameaça cessasse. Os boletins da Cadeia da Legalidade eram traduzidos e transmitidos à noite em espanhol, inglês e francês.
O episódio mereceu também a atenção da diplomacia norte-americana e foi comparado pelo então cônsul dos Estados Unidos em Porto Alegre, Percy Warner, ao programa Guerra dos Mundos, que Orson Welles transmitiu em 1938, narrando uma fictícia invasão alienígena à Terra e provocando histeria na população.
A Rádio da Legalidade saiu do ar à meia-noite do dia 7 de setembro de 1961, oito horas depois de Jango tomar posse e de setores militares e políticos verem fracassadas as tentativas de instalar o parlamentarismo no país.