Túneis e fantasmas
Os dois túneis construídos junto com o Palácio Piratini têm cerca de dois metros de altura, um metro de largura na parte mais larga e menos de cem metros de comprimento, começam e terminam dentro do pátio do Palácio, mas a extensão das histórias ligadas a eles é bem maior. O folclore que envolve as duas construções garante que um dos túneis uniria a ala residencial do Palácio à Catedral, e o outro estenderia-se da área próxima ao Galpão Crioulo ao terreno onde atualmente se localiza o prédio do Arquivo Público, na Rua Riachuelo.
As principais especulações são em relação a sua utilização durante a Campanha da Legalidade, quando de dentro do Palácio o então governador Leonel Brizola liderou o movimento pela posse do vice-presidente João Goulart após a renúncia do presidente Jânio Quadros. O Piratini transformou-se em uma espécie de bunker da resistência contra a tentativa de setores políticos e militares do país de impedirem a posse de Jango. Dentro desse contexto, os túneis estariam sendo preparados para servirem de meios de fuga para Brizola ou até para abastecimento com alimentos, caso o Palácio fosse sitiado por forças intervencionistas do governo federal, o que acabou não ocorrendo.
Outra história contada repetidas vezes sobre o uso dos túneis como rota de fuga se refere ao que teria sido a saída do governador Ildo Meneghetti do Piratini durante o golpe militar de 1964. Meneghetti teria sido aconselhado por seus assessores a deixar Porto Alegre durante os dias que se seguiram ao 31 de março. Assim, teria usado um dos túneis para sair escondido do Piratini e se refugiar em Passo Fundo. O imaginário popular acabou juntando os dois episódios e entre as lendas que cercam o uso dos túneis, há inclusive relatos de uma fuga de Brizola pelo túnel que ligaria o Palácio à Rua Riachuelo, vestido de mulher, durante o golpe de 1964.
Com as transformações arquitetônicas no Centro de Porto Alegre, mesmo que os túneis ligassem o Palácio a locais fora do pátio interno do prédio, estes já estariam obstruídos. Obras como a construção do prédio da Assembléia Legislativa, por exemplo, já teriam fechado o túnel que faria a ligação como as proximidades do Rio Guaíba no início do século passado e final do século 19, período entre a realização do projeto do Palácio e de sua primeira ocupação por Borges de Medeiros.
Como todo prédio repleto de histórias e palco de acontecimentos importantes, o Piratini também tem fantasmas que percorrem as salas desde a ala residencial até os porões da ala governamental. Embora esses seres que fazem abrir portas e janelas e ranger o assoalho nem sempre tenham uma identificação imediata com algum antigo morador, a longilínea figura do “velho Borges” já foi avistada por olhos mais atentos. Antigos funcionários já falecidos também às vezes são vislumbrados exercendo suas antigas funções. Ruídos de passos quando não há ninguém, janelas e portas que se abrem sem motivo aparente recheiam o cotidiano de quem vive a rotina do palácio.